A importância das Academias de Letras
Para melhor entendermos a importância das academias de Letras, vale reportar-nos um pouco à época de sua origem. Platão, filósofo grego, discípulo de Sócrates, adquiriu o espaço que pertenceu ao herói grego Academos, para fundar uma academia voltada para o saber, o conhecimento. Daí a origem do nome. Este personagem se tornou um herói não das letras, mas por ter participado da guerra de Troia.
Platão fundou a primeira academia, denominada Academia de Platão, próxima à Atenas. O filósofo pretendia reunir contribuições no campo do saber, entrelaçando à filosofia a matemática, a música, a astronomia e a legislação. Acreditava que seus jovens seguidores dariam continuidade a esse trabalho. Platão fez mudanças buscando, através da dialética socrática, o saber pelo conhecimento e questionamentos que resultavam em debates. Antes o conhecimento priorizava, sobretudo, a repetição do saber. A ideia inovadora dos questionamentos e debates influenciou as diversas instituições literárias na França, entre 1620 e 1630. No entanto, constatou-se que antes dela existiram diversas agremiações literárias com objetivos análogos, que tiveram pouco tempo de vida: surgiram e logo desapareceram.
A primeira academia no Brasil, a Cearense de Letras, em Fortaleza, foi fundada em 15 de agosto de 1894 e é a mais antiga de todas as academias de Letras do país, 123 anos, anterior à Academia Brasileira de Letras, que foi fundada em 1897. A ABL, sediada no Rio de Janeiro, transformou-se em modelo e motivação para que outras surgissem em diversos Estados. Várias delas, muito ativas, tornaram-se importantes espaços para a divulgação da literatura e reconhecimento dos valores locais.
A Academia no Brasil inspirou-se no modelo francês, a princípio formada com trinta escritores, depois acrescida de mais dez, perfazendo um total de quarenta membros. A diferença é que, enquanto a academia francesa aceitava receber escritores de outros países, a brasileira teve por objetivo a cultura e a língua nacional. Vale ressaltar que a principal razão do surgimento das academias foi a necessidade de um local para o encontro dos que apreciavam a arte literária. Antes do final do século XIX eles se reuniam nas livrarias da cidade, o que não atendia aos projetos de discussão e estudo como pretendiam.
Até pouco tempo as academias eram vistas como grupos segregadores. As igrejinhas, como se referiam jocosamente. Diziam que ficavam restritas a um determinado grupo de pessoas. Segundo o escritor cearense Filgueiras Lima “não devem ser as academias igrejinhas de maior âmbito em que o espírito Coterie possa manifestar-se mais ampla e desenvoltamente. O seu objetivo não é o mútuo turibular do incenso da lisonja: não é o reciprocar permanente de elogios bajulatórios, nem a permuta oficial de láureas e títulos.”
Com o tempo essa visão negativa foi parcialmente superada. Algumas academias hoje tentam romper com esse modelo ultrapassado. Como exemplo, temos a atuação renovadora da Academia Pernambucana de Letras, que abriu seus portões para a comunidade interessada na arte literária, promovendo palestras e homenagens aos escritores pernambucanos, cursos de atualização da Língua Portuguesa e outros projetos.
A presidente Fátima Quintas, dinamiza a academia convidando escritores locais para a apresentação de trabalhos sobre os que partiram e foram injustamente esquecidos, deixando valiosa contribuição. Ou valorizando os vivos, feito as homenagens a Olímpio Bonald Neto, Gilvan Lemos e tantos outros que foram agraciados com o estudo e comentários sobre suas obras. São os mortais plantando a semente da imortalidade, através da permanência de sua criação literária.
Segundo Machado de Assis, primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, os espaços literários trabalhando pelo conhecimento, será a guarda da nossa língua. Caberá defendê-la porque suas fontes legítimas são o povo e os escritores. Para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação das obras literárias.
Em Pernambuco, temos academias na cidade do Recife e nas interioranas, como em Olinda, Camaragibe, Igarassu, Escada, Vitória de Santo Antão, Gravatá, Pesqueira, Caruaru, Garanhuns, Serra Talhada, Afogados da Ingazeira, Triunfo, Petrolina e outras. Em resumo, atualmente há catalogadas 186 academias de letras no território nacional, sem contar com os grupos literários atuantes. E outras que devem ter surgido após a pesquisa mencionada, feito a Academia de Letras do Brasil que se instalou no Recife recentemente e ainda está em vias de organização. Os membros da diretoria já foram empossados, aqui presentes a presidente Luciene Freitas e a vice, Telma Brilhante. A sede é em Brasília, mas ela está disseminada em todo território nacional nas diversas capitais.
Somente em Olinda temos a Academia Olindense de Letras (que comemorou cinquenta anos de existência), Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda e a Academia Maçônica de Letras em Olinda. Esta cidade histórica não é somente Patrimônio da Humanidade, mas a cidade que congrega e preserva o patrimônio da cultura pernambucana.
Há pouco tempo, dentre onze, nove amigos tomaram posse na Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, (AALCO). Concluindo, constatamos que as academias vieram cumprir o papel de socialização do conhecimento, pela necessidade de cultivar o espírito através da leitura e da escrita, o que se tem praticado nos encontros literários com muito amor e compromisso.
__________________________________
Suspiro do vento
Telma de Figueiredo Brilhante
Tenho o destino traçado no vento
No vento a dor nos sulcos da terra
Da terra a semente nas cores do mundo
Do mundo o sal nas entranhas da pedra
Da pedra o grito nas noites cativas
Cativas dos sonhos sedentos de amor
De amor a peleja nos campos minados
Minados de estrelas perdidas no mar
No mar as saudades vagando nas ondas
Nas ondas vagando verdazuis queixumes
Queixumes trazendo da lenda o mistério
Mistério da lenda no fio da sombra
Da sombra o suspiro
O suspiro do vento.

Telma Brilhante: natural do Crato/CE e reside no Recife desde 1966. Na UFPE, formou-se em Letras, com especialização em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Faz parte de diversas Academias de Letras como a Academia Recifense de Letras. Foi presidente da Academia de Letras do Brasil/PE, é membro do Instituto Cultural do Cariri, Crato-CE. Foi premiada e homenageada em diversos momentos literários. Possui verbetes no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, Org. Nelly Novaes Coelho (SP), e no Dicionário de Mulheres, de Hilda Agnes H. Flores, de Florianópolis. Participou em mais de cem antologias no Brasil. No exterior, Revista Cultive, Suiça; Revista II Convívio, Itália; Portugal, Revista Internacional de Literatura e Arte, Francachela, Argentina; Le Grand Show Des Écrivaines Brésilienses, France. Colaborou em diversos jornais e revistas. Possui vários livros publicados como: Aflição de pássaro; contos (Premiado pela APL): Crepúsculo das coisas (contos); Sendas do Oriente (haicais); entre outros.
