
O dramaturgo de Catende
É com o coração aberto, uma vontade superior, profundamente tocada, que escrevo sobre o meu pai, o teatrólogo Aristóteles Soares que, no dia 6 de fevereiro, teria completado 105 anos. A obra literária do “Dramaturgo de Catende”, como se tornou conhecido, sempre me ensinou muito. Com toda a transcendência que sinto e vejo, os seus textos são muito mais do que um discurso social, panfletário, regional, porque falam da jornada do próprio homem que vivencia suas agruras e seus desejos, que podem estar tanto em Catende quanto em qualquer lugar do mundo. Nos diálogos contidos nas suas peças teatrais ele encontrou imagens do errante, do devir, do confinamento entre tantos outros signos e símbolos.
Como teatrólogo de boa cepa, Aristóteles Soares foi agraciado com vários prêmios, inclusive pela Academia Brasileira de Letras, deixando à historiografia pernambucana e ao teatro brasileiro uma obra de vigorosa importância. O seu universo literário, desde cedo, foi revelado, demonstrando sua tendência maior para as letras, quando escreveu vários poemas publicados pelo “Correio de Catende”. Só mais tarde, viria a descobrir sua verdadeira vocação intelectual: o teatro. Daí, passou a escrever algumas peças que foram levadas ao ar pela Rádio Mayrinck Veiga, do Rio de Janeiro. Revelou-se , também, compositor musical, compondo marchinhas, valsas, fox- trots…
A princípio, no campo teatral, Aristóteles dedicou-se a escrever comédias que foram encenadas no Cine Teatro Guarani de Catende e em outras cidades do interior de Pernambuco. São peças de costumes nas quais gente simples vive suas tragicomédias universais.
Depois, motivado pelo movimento teatral capitaneado por Hermilo Borba Filho, que ao ler um dos textos do jovem dramaturgo, maravilhado, exclamou: “Quem tem uma imaginação dessas, com um diálogo sui generis condizente com o nosso regionalismo, não deve continuar escrevendo peças de costumes, e, sim, teatro dramático, baseado em assuntos regionais, dado à teatralidade potente do seus textos”.
Graças ao sinal de alerta de Hermilo foi que Aristóteles Soares passou a escrever peças comprometidas com o “teatro nordestino”, dando início a uma série de dramas regionais que retratam as vidas cruzadas da gente simples que sobrevivia da monocultura canavieira da época. As peças aristotélicas – encenadas pelo Teatro de Amadores de Pernambuco, no Recife –, são basicamente uma retratação da decadência da monocultura da cana-de-açúcar. Pois, sendo meu pai, um pernambucano genuíno da Zona da Mata Sul, tendo suas raízes interioranas – eis a razão do seu profundo conhecimento da labuta dos trabalhadores rurais, com os quais conviveu, carregando em sua alma, o mais verdadeiro sentimento nordestino para levar ao palco a penúria e o drama de vidas cruzadas da gente humilde, impotente, oprimida, cortada pela palha da cana.
Nota-se, em sua obra teatral, o amor à sua terra, onde o sofrimento do homem do campo é bem diverso dos demais. Suas peças são densas em temas telúricos e regionais. Lembro-me, quando adolescente, que o Teatro de Aristóteles Soares alcançou expressivo êxito, não só em Pernambuco, mas, também, em todo o Brasil.
Numa matéria publicada na revista O Cruzeiro, uma das mais conceituadas daquele tempo, lia-se: “Terra Queimada no Rio, de Aristóteles Soares, desperta a atenção da Cidade Maravilhosa” – uma referência à peça Terra Queimada, seu “poema” rural, sua obra-prima, um emaranhado de vidas cruzadas que o destino aproximou numa barraca de machadeiros. Trata-se de uma narrativa que se eleva pelo choque das paixões de que se faz teatro, às glórias de um cenário wagneriano.
Pelo muito que fez em prol do teatro nordestino, estou convicta de que Aristóteles Soares, pertence a uma dimensão superior. Quando alguém passa pelos verdes canaviais do Nordeste do Brasil, pode avistar um anjo guardião, velador daquelas paragens e de sua gente simples e sofrida.
OBRAS PUBLICADAS: Primeira fase: A Carta, Temos agora um Futuro, Casei com a Madrinha, O Barão de Caitetu; Segunda fase: Cana Brava, Sangue Velho, Terra Queimada, Messias, Morte em Vera Cruz, A Trovoada, Município de São Silvestre, O Vai e Vem do Sobe e Desce, O Carcereiro.


Maria Arilena Borba Soares: nascida em Catende-PE e radicada no Recife-PE, é autora do texto “A Convivência com Aristóteles Soares”, publicado na Revista Novo Horizonte. Ilustrou a capa e o miolo do livro “Outro Sol se Levanta”, última obra do contista Pelópidas Soares e a capa do livro “Ciclo das Oferendas” da poetisa Bartyra Soares. Participou da antologia “Lendas do Nordeste”, com a lenda de sua autoria “O Fogo Azul ou o Fogo que Corre”. Detém o copyright da obra completa, incluindo o “Dossiê Crítico-Informativo” do livro “O Teatro de Aristóteles Soares”, seu pai. Atualmente, participa da Antologia de Literatura Novo Horizonte, organizada pelas escritoras Lourdes Nicácio e Raphaela Nicácio com uma homenagem ao pai, o texto “O Dramaturgo de Catende”, mais o prefácio do livreto “Gaveta, Pra que Te Quero” da escritora Lúcia Machado. Sua arte e sua escrita refletem sensibilidade, memória e celebração da cultura nordestina.
