No Campo Santo
Voltei à minha terra natal, como fazia habitualmente havia muitos anos, nos períodos de férias. Ano após ano, normalmente no mês de julho, por ocasião da ExpoCrato, tradicional festa agropecuária, cultural e social da região. Era uma forma de manter vivas minhas raízes e jamais me afastar de minhas origens.
Naquele mesmo período, preparava um livro sobre a genealogia de minha família, a partir de meus avós maternos. Resolvi, então, pela primeira vez, visitar o Campo Santo, o mais antigo cemitério da cidade, em busca do túmulo deles. Minha mãe falava de seus pais com muito carinho, amor e profunda saudade. Infelizmente, não tive a oportunidade de conhecê-los. Tampouco conheci meus avós paternos; quando nasci, todos já haviam falecido.
Escolhi, sem perceber, um horário particularmente doloroso para aquela visita: era meio-dia, sob um sol escaldante. Protegi-me com um boné que trazia no carro e, apesar do calor intenso, continuei incansavelmente minha peregrinação entre sepulturas e lembranças.
Mesmo numa procura minuciosa, encontrei apenas o túmulo onde meu avô materno fora sepultado. Seus restos mortais repousavam numa sepultura pertencente à família. Não havia qualquer registro de minha avó, embora ela tivesse falecido muitos anos antes. Nunca soube por que seu nome não constava ali. Esqueci de perguntar a meus pais ou mesmo a meus tios, quando ainda estavam vivos. A ausência daquele registro tornou ainda mais melancólica a minha busca.
Aproveitei para procurar também o túmulo de minha avó paterna, mas a busca foi em vão. Quanto ao meu avô paterno, eu já sabia que havia sido sepultado em outra cidade, onde residia quando faleceu. Meu pai havia me contado isso certa vez, e jamais esqueci.
Foi então que surgiu, inevitavelmente, um segundo impacto, que me emocionou ainda mais do que o primeiro. Passei a encontrar os jazigos de vários amigos de infância e adolescência, familiares desses amigos, parentes, comerciantes, políticos e tantas outras pessoas que fizeram parte da história da cidade e, de alguma forma, também da minha.
Cada nome gravado na pedra despertava uma ou mais recordações. Eram fatos alegres e tristes, encontros e despedidas, vitórias e derrotas. Cada um havia escrito sua própria trajetória, encerrada, inevitavelmente, pela morte.
Foi então que uma ideia me atravessou o pensamento, e indaguei a mim mesmo:
– Meu Deus… já estou com 76 anos! E agora?
Por alguns instantes, permaneci imóvel. O silêncio do cemitério parecia amplificar aquela constatação.
Chegara a hora, ou talvez ela já tivesse passado, de fazer uma reflexão mais profunda sobre minha vida? Sobre a trajetória que percorri até aqui? Sobre o que realizei, o que deixei de realizar e o legado que um dia também deixarei?
Parei diante de um túmulo que chamou minha atenção. Estava repleto de rosas, flores e mensagens de gratidão. Impressionou-me de maneira especial: era a sepultura do Dr. Gesteira.
Naquele instante fui transportado ao dia de seu falecimento. Eu tinha apenas oito anos. Era um médico muito conhecido na cidade, admirado por sua competência e, sobretudo, por sua bondade. Atendia a todos sem distinção, dedicando especial atenção aos mais pobres, muitas vezes sem nada lhes cobrar.
Sua morte causou enorme comoção entre os moradores. Antes de falecer, infelizmente, entregou-se ao alcoolismo e desenvolveu uma cirrose que o levou à morte.
Depois de sua partida, surgiram inúmeros relatos de pessoas que afirmavam ter sido operadas ou socorridas por ele, embora já estivesse morto. Histórias que alimentaram sua fama de médico milagroso e transformaram seu túmulo em local de devoção popular. Ainda hoje, sua sepultura é uma das mais visitadas do cemitério, sobretudo no Dia de Finados.
Esse foi apenas um exemplo das muitas lembranças que povoaram minha mente durante aquela breve visita.
Fatigado, olhei para o alto e percebi que o sol já não me incomodava tanto. As horas haviam passado, e eu nem me dera conta. Estava tão absorvido por lembranças e reflexões que perdera completamente a noção do tempo.
Foi então que outra constatação me atingiu. Meus pais e meus irmãos já falecidos não estavam ali. Meus pais repousavam na capital pernambucana; meus irmãos, na capital cearense. Apenas um deles, o mais velho, estava sepultado no Crato, mas em outro cemitério. A grande família da qual fiz parte estava, naquele Campo Santo, incompleta.
Naquele instante, compreendi que, mais do que visitar um cemitério, eu havia percorrido um vasto território de memórias. Cada sepultura guardava uma história; cada nome despertava uma saudade. E eu, silenciosamente, caminhava entre elas, tentando compreender o tempo, a vida e a inevitabilidade da morte.
Saí dali convicto de que, mais do que nunca, precisava fazer uma retrospectiva de minha vida. Rever minha trajetória, reconhecer meus acertos, admitir meus erros e, sobretudo, decidir como viver os anos que ainda me fossem concedidos. A reflexão sobre o tempo, a finitude e o verdadeiro sentido da existência já não podia ser adiada.
Compreendi que nunca é tarde para corrigir equívocos, fortalecer os laços de afeto, exercitar o perdão, praticar o bem e agradecer pela caminhada já percorrida.
Ao deixar o Campo Santo, levei comigo a certeza de que a morte de parentes, amigos e companheiros de jornada não representa apenas o fim da existência terrena. Ela é, sobretudo, um permanente convite para que valorizemos a vida enquanto ela nos é concedida.
Preparo-me, serenamente, para que, no devido tempo, eu também faça minha viagem de volta ao passado mais distante: o Universo, de onde todos viemos e para onde, um dia, todos retornaremos. Sei que, antes dessa derradeira travessia, algum Campo Santo me aguardará como a última estação da existência terrena. E, quando esse momento chegar, espero partir em paz, agradecido a Deus pelo dom da vida e por tudo o que me foi permitido viver.

Heitor Bezerra de Brito nasceu no Crato (CE), mudou-se para Recife-PE onde se preparou para a universidade e o mercado de trabalho. Ingressou na CHESF em setembro de 1969, na área burocrática. Formou-se em Geologia pela UFPE (1976) e, como portador de diploma, concluiu Engenharia Civil pela UPE (1981). Fez cursos de extensão em Sismicidade Induzida (USP), Construção de Barragens (SUDENE/CHESF/UFPE) e Controladoria (Mackenzie). Na CHESF, atuou como geólogo, engenheiro civil e ocupou cargos de liderança por quase 30 anos. Recebeu as medalhas de bronze (10 anos) e prata (20 anos) pelos serviços prestados. Aposentado, fundou a empresa SOLL – Serviços, Obras e Locações Ltda., onde é presidente. Também preside o GRUPO HBB, que inclui a SOLL, Caça Metralha e Inteligência Segurança Privada. Desde cedo influenciado pelo pai José Figueiredo de Brito — jornalista, cronista e escritor — dedicou-se também à literatura. Participou de mais de 50 antologias e publicou os livros: “José Figueiredo de Brito – Luta e trajetória”; “Eu, Horácio e outros contos”; “Tão longe, tão perto”; “Rabo de Burro”; “Notívagos”; “Genealogia de Joaquim Bezerra de Menezes e Raimunda Gomes de Mattos”; “Meus Haicais” e “Casa dos Dois Leões”. Escreve crônicas para o periódico do Rotary Club do Recife Casa Amarela, onde é sócio e foi presidente no ano rotário 2022/2023. Participou da Oficina de Estudos Literários do escritor Raimundo Carrero e do Grupo de Estudos Literários Dom Graciliano. É membro da UBE/PE, da ABRAEE, do Instituto Cultural do Cariri (cadeira nº 11), da AALCO (cadeira nº 36) e da ABROL/PE (cadeira nº 08). Colabora com a revista A Província (Crato/CE). Recebeu o Prêmio Diamante Cultural do Institut Cultive Suisse Brésil, a Medalha Mandacaru Mérito Cultural (Selo Enseadas das Letras) e venceu em segundo lugar, o 19º Concurso Literário Jornalista Valacir Cremonese (Sobradinho/RS).
