
Maria Bethânia: a voz como morada da palavra e os diálogos com Pernambuco – 80 anos de vida, 61 anos de uma carreira vitoriosa!
Iêdo de Oliveira Paes
Professor do Departamento de Letras da UFRPE e do PROGEL/UFRPE
Carlos José de Albuquerque
Presidente do Fã-Clube Grito de Alerta/PE
Se existe uma artista brasileira cuja trajetória desafia as fronteiras entre literatura, música e artes da cena, essa artista é Maria Bethânia. Durante mais de seis décadas, sua obra construiu um percurso singular: fez da canção um espaço de leitura, da interpretação um exercício de crítica sensível e da voz um lugar de permanência da palavra literária.
Não é por acaso que sua produção desperta crescente interesse entre pesquisadores da Literatura, das Artes Cênicas, da Música, da Comunicação e dos Estudos da Oralidade. Em Bethânia, cantar nunca significou apenas interpretar melodias; significou devolver aos textos aquilo que lhes pertence desde sua origem mais remota: a voz.
Essa compreensão talvez explique por que tantos leitores chegaram primeiro aos poetas através dela. Antes de abrir um livro de Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Lya Luft ou Ferreira Gullar, muitos brasileiros ouviram esses autores na voz de Maria Bethânia. Sua arte demonstra que a literatura não habita apenas a página impressa; ela continua existindo sempre que alguém a pronuncia com verdade.
Essa dimensão aproxima sua obra das reflexões de Paul Zumthor acerca da oralidade. Para o medievalista suíço, o texto somente se realiza plenamente quando encontra uma voz capaz de atualizá-lo diante de quem o escuta. A performance não reproduz o texto; ela o recria. Em Maria Bethânia, a palavra escrita reencontra essa condição originária. Sua interpretação não ilustra o poema; restitui-lhe corpo, respiração, silêncio, tempo e presença.
É justamente nesse ponto que sua trajetória encontra Pernambuco. Curiosamente, essa aproximação antecede sua própria carreira. Ela começa antes mesmo do nascimento da artista, inscrita no nome que passou a identificá-la. Maria Bethânia recebeu esse nome por sugestão de seu irmão, Caetano Veloso, inspirado na célebre valsa “Maria Betânia”, composta por Capiba para a peça Senhora de Engenho, de Mário Sette. A composição, posteriormente gravada por Nélson Gonçalves, alcançou enorme popularidade e atravessou o país até chegar a Santo Amaro da Purificação, tornando-se parte da história da família Veloso. Assim, antes mesmo que sua voz fosse conhecida pelo Brasil, Pernambuco já se fazia presente em sua identidade.
Talvez por isso a própria artista tenha declarado, em entrevista ao Jornal do Commercio, que seu vínculo com Recife era “invisível” e “espiritual”, uma relação construída menos pela geografia do que pelo pertencimento afetivo e cultural. Ao falar da capital pernambucana, Bethânia afirmou reconhecer ali a permanência de tradições que o Brasil, muitas vezes, deixou enfraquecer.
Entretanto, reduzir essa relação à gravação de compositores pernambucanos seria insuficiente. Pernambuco ocupa, em sua obra, um lugar simbólico muito mais profundo: representa um território onde literatura, música popular, tradição oral e memória cultural permanecem indissociáveis.
Esse diálogo torna-se particularmente evidente na presença constante de escritores pernambucanos em seus espetáculos e gravações. Entre eles, destaca-se João Cabral de Melo Neto. A aproximação de Maria Bethânia com a obra cabralina jamais se restringiu ao gesto de declamar poemas. Em diferentes momentos de sua carreira, ela voltou ao universo do poeta recifense para compreender a arquitetura de sua linguagem, marcada pelo rigor formal, pela contenção expressiva e pela precisão vocabular. Um dos momentos mais significativos dessa interlocução ocorreu na série Poesia e Prosa, produzida pelo canal Arte 1, dedicada à relação entre grandes autores da literatura e a leitura artística de seus textos. No episódio consagrado a João Cabral de Melo Neto, Bethânia conduz o espectador por uma verdadeira travessia crítica da obra do poeta, dialogando com estudiosos e com Chico Buarque — responsável pela célebre musicalização de Morte e Vida Severina. Ali, sua interpretação revela uma compreensão rara da poesia cabralina: em vez de teatralizar o poema, preserva sua secura, sua economia verbal e sua intensidade silenciosa, demonstrando que a emoção de João Cabral nasce precisamente da recusa ao excesso.
Se João Cabral representa o rigor da construção poética, Manuel Bandeira oferece outro caminho igualmente caro à intérprete: a memória, a delicadeza do cotidiano e a musicalidade da linguagem. Ao longo de sua carreira, Bethânia revisitava continuamente a obra do poeta recifense, incorporando poemas como “Brisa” e “Azulão” aos seus discos e espetáculos, permitindo que a poesia bandeiriana alcançasse novos públicos muito além do ambiente estritamente literário.
Essa capacidade de aproximar leitores da literatura encontrou talvez sua expressão mais radical no recital Bethânia e as Palavras, apresentado em diversas cidades brasileiras e levado a Olinda durante a Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em 2012. Ali, a cantora praticamente suspendia a lógica tradicional do espetáculo musical para colocar a palavra no centro da cena. A música permanecia, mas como extensão da literatura. O espetáculo reafirmava aquilo que sua trajetória sempre sugeriu: antes de cantora, Bethânia é uma leitora apaixonada; antes da melodia, existe o texto; antes da canção, a palavra. Na apresentação em Pernambuco, poemas de Manuel Bandeira conviveram naturalmente com canções de Luiz Gonzaga, revelando a profunda continuidade entre literatura e cultura popular nordestina.
Essa vocação de mediadora da literatura também se manifesta quando Maria Bethânia escolhe o repertório musical que interpreta. Pernambuco aparece constantemente não como região folclorizada, mas como uma das matrizes fundamentais da cultura brasileira. Capiba, Antônio Maria, Fernando Lobo, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, Lenine, J. Michiles, Ascenso Ferreira, Naná Vasconcelos e tantos outros formam um mosaico artístico que atravessa sua discografia, seus espetáculos e suas leituras públicas. Não se trata de um inventário de gravações, mas da construção de um imaginário em que a cultura pernambucana participa da definição estética da própria artista. Essa constatação, aliás, fundamentou a proposta apresentada pelo Departamento de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para a concessão da primeira Láurea do Mérito Cultural da instituição, em reconhecimento à sua decisiva contribuição para a difusão da cultura pernambucana no Brasil e no exterior.
Foi precisamente a partir dessa compreensão que a UFRPE, em parceira com o Fã-Clube Grito de Alerta, promoveu, nos anos seguintes, uma sequência de iniciativas dedicadas ao estudo da obra de Maria Bethânia. Em 2025 realizou-se o I Colóquio de Literatura e Outras Artes – Maria Bethânia: 60 anos de trajetória artística. No ano seguinte, por ocasião de seus oitenta anos de vida, pesquisadores, professores, estudantes e admiradores voltaram a reunir-se em torno da mesa-redonda “Maria Bethânia: entre a voz, a palavra e a cena”. Esses encontros confirmam que sua produção ultrapassou definitivamente o campo da música popular para ocupar lugar de interesse permanente nos estudos literários brasileiros. Talvez resida aí sua maior contribuição.
Num tempo em que a velocidade frequentemente reduz a leitura à informação imediata, Maria Bethânia insiste na experiência da escuta. Sua voz restitui ao poema o tempo da respiração, do silêncio e da contemplação. Ela não substitui o livro; conduz o ouvinte até ele. Não interpreta a literatura para encerrá-la em sua própria voz, mas para devolvê-la ao leitor.
É justamente por isso que sua obra continua desafiando classificações. Chamar Maria Bethânia apenas de cantora parece hoje insuficiente. Ela se tornou uma das maiores mediadoras da literatura brasileira contemporânea. Fez da oralidade uma forma de crítica, da performance uma forma de leitura e da palavra um acontecimento estético.
Entre Bahia e Pernambuco, entre a página e o palco, entre a escrita e a voz, Maria Bethânia construiu uma das experiências artísticas mais singulares da cultura brasileira. Sua trajetória demonstra que a literatura permanece viva sempre que encontra quem a leia, quem a escute e, sobretudo, quem lhe empreste a própria voz.
E Bethânia se presentifica quando ecoa o grito oriundo da garganta e define o seu ser através da canção do músico baiano Batatinha, no espetáculo Imitação da Vida, de 1996: “Ninguém sabe quem sou eu, também já não sei quem sou. Eu só sei que o sofrimento de mim até se cansou, na imitação da vida ninguém vai me superar”. Brava, Maria Bethânia!

Iêdo Paes é Pós-Doutor em Literatura e Crítica Literária pela PUC GOIÁS. É autor de vários livros publicados: Ecos do Arcadismo no Romanceiro da Inconfidência 2002 (relançamento 2022), Ofertório de Heresias (2021), Pequeno Oratório da Devassa (2022), Odoyá de mim (2023). No prelo: Missal da Blasfêmia e Depois do Entardecer.

Carlos Albuquerque é pesquisador da trajetória e da memória cultural de Maria Bethânia e presidente do Fã-Clube Grito de Alerta, no Recife-PE. À frente do Acervo Grito de Alerta, desenvolve trabalho de pesquisa, preservação e difusão de documentos, fotografias e publicações relacionados à vida e à obra da artista.
