OS VENTOS UIVANTES DO DISCURSO
ROMANESCO: um viés pêcheutiano
O Mal, considerado autenticamente, não é só o sonho do malvado, ele é de algum modo o sonho do bem (Georges Bataille)
Este ensaio/ artigo de opinião, busca analisar o romance inglês O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights A palavra wuthering é um termo de origem regional do norte da Inglaterra que significa uivante ou soprando ruidosamente. É usado principalmente para descrever o som forte e violento do vento ou locais muito ventosos e expostos). Na segunda parte buscamos em Pêcheux e Battaile algum respaldo.
O primeiro foi o iniciador da Escola Francesa da Análise de Discurso, produziu tematização do histórico, do social, do ideológico, indicando que a reflexão não é fria, mas lugar de emoção, também, resistência, enfrentamento, questionamento, não se pretende fixista, mas energia intelectual. “Pêcheux define a Análise de Discurso como um campo profícuo para a leitura e a interpretação dos discursos através do dispositivo idealizado por ele e das próprias condições de produção dos discursos, ao mesmo tempo em que sustenta a ruptura com o pensamento científico e a ortodoxia da época ao propor enfoque teórico-analítico voltado para a consolidação de uma Teoria do Discurso que estava intimamente associada à ideologia, ao funcionamento do inconsciente e à luta de classes.
Considerada uma obra do estilo gótico, da Era Vitoriana (1837-1901), e atualmente um clássico da literatura mundial O Morro dos Ventos Uivantes, único romance da autoria da escritora inglesa Emily Brontë, surgiu em meio a um contexto histórico de aceleradas mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas. Após o fim dos conflitos liderados por Napoleão Bonaparte, na Europa e da retomada das relações comerciais marítimas, a Era Vitoriana representou um momento de paz e prosperidade para o povo britânico, tendo sido a Inglaterra a pioneira da Revolução Industrial.
Lançado pela primeira vez em 1847, sob o pseudônimo masculino Ellis Bell, a obra provocou reações controversas em função do seu conteúdo não se ajustar à moral e aos bons costumes da sociedade da época. O turbulento protesto ganhou ainda mais força quando a segunda edição foi publicada, em razão da descoberta/revelação de ter sido escrita por uma mulher. Sabemos que Mary Shelley, autora do Frankenstein, também sofreu preconceito na Inglaterra quando quis publicar seu romance. A primeira versão de “O Morro dos Ventos Uivantes” publicada no Brasil foi realizada em 1938 pelo tradutor Oscar Mendes.
Uma segunda tradução foi feita em 1947 pela escritora modernista Rachel de Queiroz, a pedido da Editora José Olympio. Nos anos 1960, houve uma adaptação para novela de TV, teve como adaptador Lauro César Muniz, na TV Excelsior, São Paulo, em 1967, tendo o consagrado ator Altair Lima no papel de Heathcliff. Há que se registrar também que a cantora pop inglesa Kate Bush, em 1978, lançou um hit internacional inspirado no romance de Brontë e até hoje surgem sempre novas adaptações cinematográficas deste livro inglês, que não ficou apenas preso à literatura. A primeira adaptação para o cinema foi realizada no Reino Unido, em 1920, sob a direção de Albert Victor Bramble.
É bom lembrar que o percurso histórico e a visão conservadora que prevalecia no período da criação da obra, destacava a ideia de cristão devoto, modelo de família ideal, padrão de vida com um estilo baseado na elegância, isto influenciou fortemente a produção/criatividade literária de Emily Brontë, que é o que chamamos Zeitgeist (termo o alemão, pronuncia-se “dzaigaist”), espírito do tempo, conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural em uma época, período de tempo. Há relatos de que a obra também sofreu influências da condição social que a autora vivia e do seu estilo de vida insociável.
Com a utilização do narrador-testemunha seguimos rumo à apresentação do narrado sem a mediação os ostensiva de uma voz exterior, o clima de conversa, o tom coloquial perpassa todo o romance, num clima envolvente de aconchego e ameaça, suspense, confidência, perante o leitor, como nos folhetins melodramáticos.
Emily Brontë era complexa, ela queria as oposições e se debatia em seus eus em conflito pela integridade que buscava e não encontrava, de modo que havia nela uma filosofia de dualismo que se projetou e O Morro dos Ventos Uivantes um modelo dinâmico de trabalho da mente em todos os seus conflitos. Afirmações desse porte lançam luzes sobre a natureza da autora e de seu mundo interior, regido pelo desejo anárquico que governa sua pena, que lembra s uma espécie de arma secreta, desafiando a autoridade. Ao ler O Morro dos Ventos Uivantes percebemos nos personagens marcas distintivas do simbólico, principalmente n\ construção do seu pilar central: Heathcliff, mola propulsora da narrativa, em seus crimes e desvios, entre coisas e pessoas.
A própria casa é signo que remete a outros objetos em processo social de semiose, onde a linguagem, sistema de signos verbais, serve para formular pensamentos sobre a realidade, que, em jogo semântico manifesta e encobre contradições. Com Heathcliff, a autora não visaria abrir a via mítica, mas parece fundir por todo o romance as visões lírica e narrativa, em sutil ambiguidade na sua visão dos conflitos de classes, nas suas práticas linguístico-literárias, dissolvendo, muitas vezes, no seu bojo as marcas dos aparelhos ideológicos no período em questão (1ª metade do século XIX, interior da Inglaterra), rasurando na sua ficção, barreiras de classe, no seu manejo com a linguagem, onde o racionalismo é transfigurado e o pensamento, em simulacro artístico, recria a realidade, aí a lógica parece ser uma forma sublime de poesia (em Wuthering Heights).
Emily Bronte, uma maldição privilegiada. Ela aprofunda-se no abismo do mal, na sua visão, até o fim. No Presbitério de Yorkshire, irmãs Brontë: pai pastor irlandês. Irmãs, em tumulto exaltado da criação literária, solidão moral, fantasmas da imaginação. Emily, escreveu um pequeno número de poemas. Em sua obra a morte é a verdade do amor. Quem se reproduz retorna no duplo. Erotismo, amor-paixão. Emily exprimiu o amor-morte divinamente. Vício é forma mais significativa do mal, no tormento do amor mais puro. Cathy e Heathcliff deixam sensualidade em suspenso. Vemos no romance de Emily formas sádicas do vício. Se o mal traz benefício, não é o mal.
O sadismo é o mal. As corridas selvagens pela charneca, sem coerções, recusa de Heathcliff a Catherine, Cathy, a acabar com essa imagem. Poesia sem premeditação no jogo da ingenuidade em movimentos impulsivos sem convenções racionais dos adultos, isto é, calculados em convenções dos adultos; sentimentos se fixam na idade da infância, sem lembrar do mundo dos adultos ao qual estão prometidas estas crianças (Cathy e Heathcliff). O reino maravilhoso da Charneca: ele e ela no País da Charneca, Ao casar com Edgar Linton, ela renegaria essa selvageria pelo conforto, mas isto não seria uma queda autêntica, a ida dela para uma “nova vida” na Granja Thushcross; o que não seria para Emily um mundo assentado.
Edgar Linton, marido de Catherine, não renunciou à arrogância da infância, mas se compôs soberano. Depois de rico, Heathcliff acha Catarina (Catherine) uma traidora deste mundo da infância. Em Heathcliff temos a revolta do maldito surge. Ele se empodera com seu ódio vingativo, sua raiva. O romance contém episódios de fascinante ansiedade, nada detém o furor de Heathcliff nem a morte. E tudo isso nasceu do sonho e imaginação de Emily Brontë. A Vontade Demoníaca de Heathcliff (no reino do impossível e da morte. Seria ele uma espécie de Peter Pan (para quem a morte poderia ser uma aventura?).
Heathcliff o combate o bem com raiva. Ele odeia a humanidade e esta Bondade hipócrita. Consideramos o maior personagem da literatura romântica: Heathcliff, criança revoltada (revolta sem reservas). Vamos ler Justine, do Marquês de Sade: escrito em 1787, é um romance filosófico que narra a história de Justine, uma jovem órfã e pura que escolhe o caminho da virtude. Em contraste com sua irmã Juliette, que abraça o vício e a imoralidade para obter riqueza e poder, Justine sofre abusos, torturas e perseguições incessantes, servindo como uma crítica radical à moralidade tradicional, à religião e à ideia de que a bondade é recompensada pelo destino.
A obra acompanha a protagonista desde os seus 12 anos, quando ela perde a família e se vê obrigada a sobreviver sozinha. Ao recusar uma vida de criminalidade, Justine inicia uma jornada onde se depara repetidamente com figuras hipócritas da sociedade da época — incluindo membros do clero, aristocratas e juízes corruptos. A cada tentativa da protagonista de agir de forma ética e cristã, o mundo responde com crueldade, exploração e violência. Ela é falsamente acusada de crimes que não cometeu, é presa e sofre abusos físicos e psicológicos brutais.
O enredo foca na tese do autor de que, em um mundo governado por leis naturais indiferentes e egoístas, os virtuosos são inevitavelmente as vítimas dos inescrupulosos. Além de ser uma obra precursora do terror e do romance extremo, o livro funciona como um libelo filosófico. O autor ataca diretamente a filosofia racionalista e iluminista do século XVIII, que defendia a bondade inata humana e a justiça da Providência. A narrativa propõe uma visão materialista e ateísta radical, onde o prazer — mesmo o mais monstruoso — é a única lei que rege a natureza.Devido ao conteúdo de forte teor sexual, tortura e blasfêmia, o romance é considerado uma das obras mais controversas e proibidas da literatura. Suas temáticas e descrições das dinâmicas entre a vítima perfeita e os verdugos deram origem ao termo “sadismo”
E destaquemos: que ação voluptuosa a da destruição! Não há outro Êxtase igual a Divina Infâmia. Diz Heathcliff: “se não fosse contra a lei eu os vivessecaria”, ele está falando dos Lintons e dos Earnshaw, e vivissecção é procedimento para destrinchar seres vivos para estudos científicos. Um ponto que eu destacaria também: o paradoxo de Emily Brontë, filha do pastor, a tratar destes temas, deste modo, Cathy ao dizer “Eu sou Heathcliff! (I’m Heathcliff) expressaria deste modo o que Emily diria?
Deste modo, este romance tem algo forte da tragédia grega: a transgressão trágica da lei e a simpatia pelo transgressor da lei. Cathy sente a expiação posterior por transgredir. E há a beatitude na morte de Heathtcliff e tal beatitude não se amedronta diante da morte de da amada. Enfrenta seu perpétuo tormento que é o dos que transgridem. A morte dela corresponde à morte no eterno tormento dos que assim agem. Nesta obra o texto busca superar o domínio do sagrado. A expiação estaria na morte.
O ensinamento de O Morro dos Ventos Uivantes é o da religião? Afinal, ali, a embriaguez divina seria igual ao movimento impulsivo da infância, que os adultos interditam àqueles que devem alcançar a maturidade. É o que pressentimos ali: necessário reencontrar o domínio do instante pertencente ao Reino da Infância, e isso exige transgredir, mesmo que temporariamente, o que foi proibido. Emily e Cathy dependem menos da moral do que da hipermoral: se liberam isentas de qualquer preconceito de ordem ética ou social.
O Humano surge aí num feixe múltiplo da criação artística, o que a realidade recusa? Emily conseguiu isso por ter base moral, religiosa, sólida. O incesto, o que vemos ali são casamentos entre primos e até de irmãos, se considerarmos Cathy e Heathcliff como irmãos adotivos. Ela se distancia da ingenuidade e simplicidade cristãs, que se limita ao bem equívoco no cristianismo entre Deus e a razão Isso explode nesta autora. Sonho que uma violência nem uma nem nada conseguiria harmonização. não haveria atenuantes na inocente infância o horror da expiação a pureza do amor reencontrado em sua verdade íntima: a morte como embriaguez divina se opondo às intenções do entre aspas “bem”. Do encantamento da vida resta a visão trágica e Emily, tal Santa Teresa D’Ávila, como observou Bataille: será que teve visões? Vejamos alguns poemas de Emily como “Prisioner” Nele sentimento pungente estado de alma perturbada como em outros poemas dela não tão explicitamente correspondentes à sua vida espiritual, mas que parece que foi uma vida perturbada.
Tais poemas exprimem possibilidades de vida especialmente angustiada com exaltações íntimas tristezas e alegrias da solidão. Vejamos, trecho de um deles: “Mas eu não desejaria perder nenhum sofrimento, nem suportar uma tortura menor/ Quanto mais a angústia suplicia, mais rápido ela abençoa/ E perdida nas chamas do inferno ou reluzindo com um brilho celeste se anuncia a morte, a visão é divina.” The Prisoner é um poema incompleto da autora e sem título. Vejamos: bem/ mal, dor/ alegria, real / imaginário, passado / futuro, comunicável / incomunicável. Isso tudo, todos esses paradoxos ou antíteses deixam de ser percebidos contraditoriamente na poesia de Emily Brontë e no seu romance, também. E mesmo no seu romance, de certo modo, poderíamos pensar no título de Wuthering Heights, que poderia ser traduzido como Lugar Alto, onde o leitor entra naquela casa maldita, onde Heathcliff introduz a maldição. No final da narrativa tem-se a brusca aparição de um raio de luz. O mal traduz a atração para a morte, ali, e parece descrever algo no qual um ser orgulhoso aceita as piores consequências dos seus desafios.
Emily como Teresa D’Ávila: Será que teve visões? Vejamos alguns poemas de Emily como “Prisioner” Nele sentimento pungente estado de alma perturbada como em outros poemas dela não tão explicitamente correspondentes à sua vida espiritual, mas que parece que foi uma vida perturbada mas exprimem possibilidades de vida especialmente angustiada com exaltações íntimas tristezas e alegrias da solidão. Vejamos, trecho de um deles. Mas eu não desejaria perder nenhum sofrimento, nem suportar uma tortura menor. Quanto mais a angústia suplicia, mais rápido ela abençoa. e perdida nas chamas do inferno ou reluzindo com um brilho celeste se anuncia a morte a visão é divina The Prisoner é um poema incompleto da autora e seu e sem título.
Vejamos, bem, mal, dura alegria, real e imaginário, passado e futuro, comunicável e incomunicável. Isso tudo, todos esses paradoxos ou antíteses deixam de ser percebidos contraditoriamente. na poesia de Emily Bront. E mesmo no seu romance, de certo modo, poderíamos pensar no título de Wuthering Highes, traduzido como Lugar Alto. Onde está aquela casa maldita, onde Heathcliff introduz a maldição. No fim da narrativa temos a brusca aparição de um raio de luz. O mal traduz a atração para a morte. E parece descrever algo como um ser orgulhoso aceita as piores consequências dos seus desafios.
Seguindo a linha Pecheutiana, propomos aqui uma reflexão que aceita o desconforto do lugar-já feito e propomos refletir nos entremeios, estabelecendo regiões nos interstícios, desconstruindo o discurso (Pêcheux, 2015, p. 7). Analisamos o contato da história com o linguístico, não negando a história, ao contrário, compreendendo-a experimentando seus limites no jogo social psicológico, linguístico, literário, pós-moderna e hermeneuticamente diante de signos opacos, fetiches teóricos, produzindo questões, mais do que respostas.
Usamos também George Bataille (A Literatura e o Mal), em jogo oblíquo no confronto discursivo, sem esquecer Pêcheux na materialidade discursiva do enunciado, que vai na contramão por exemplo do grito coletivo dos torcedores em uma partida esportiva (atividade gestual e vocal).
O Morro dos Ventos Uivantes expõe as taras individuais, digamos assim, em meio a um jogo trabalhista perverso, na primeira metade do século XIX, no interior da Inglaterra (Yorkshire, que renomeada no romance chama-se Gimmerton. O objeto do nosso estudo em questão inclui contrários e exige reflexões estratégicas, por isso utilizamos esses dois críticos teóricos Pêcheux e Bataille, já mencionados, para justificar nossas reflexões, unindo-os em anti-universidade (que supostamente limitam debates ou servem apenas à elite) a lógica do enunciado.
O a Gagné (A palavra francesa gagné! (significa “ganhou”, “venceu” ou “conquistou”. Ela é o particípio passado do verbo gagner. Você a usa quando alguém recebe um prêmio, consegue um emprego ou chega a um objetivo) que funde aqueles que ainda acreditavam nisso com aqueles que já não acreditavam, como dizia Pêcheux (2015 p. 25). Heathcliff de miserável mestiço (chamado de negro, algumas vezes no romance, mas apontado como “cigano sujo”) explorado passa a patrão, nos lembra Paulo Honório, narrdor do romance da década de 30 de Graciliano Ramos, São Bernardo, passa de miserável a patrão corrupto e corruptor. Catarina Earshawn (6 anos: Quando Heathcliff é adotado pela família Earnshaw. 6 anos: Quando Heathcliff é adotado pela família Earnshaw.
12 anos: A idade em que Cathy e Heathcliff começam a se apaixonar profundamente.17 anos: Quando ela se casa com Edgar Linton, em busca de uma vida com mais luxo e poder.18 anos: Sua idade no momento da morte (em 20 de março de 1784), que ocorre logo após ela dar à luz sua filha, Cathy Linton. Cathy e Heathcliff começam a se apaixonar profundamente.
17 anos: Quando ela se casa com Edgar Linton, em busca de uma vida com mais luxo e poder.18 anos: Sua idade no momento da morte (em 20 de março de 1784), que ocorre logo após ela dar à luz sua filha, Cathy Linton) e Edgar Linton representando o malvado jogo burguês heteronormativo machista, o que representa hoje dizer os problemas seguem os mesmos se a direita estivesse no poder como sugere peixe em relação a certo governo de centro-esquerda da sua época Afinal, os objetos discursivos, detalhe estável, detêm aparente privilégio de saber até certo ponto largamente, de serem até certo ponto largamente independentes dos enunciados que produzimos as suas respostas. (Pêcheux, 2015, p. 28). O irmão de Cathy, Hindley, era oito anos mais velho.
Mesmo em meio a uma concreta situação humana Emily Brontë não se deteve no real, e ultrapassou o freudiano posterior e avant la lettre, assim, também, mergulhou no fantástico em delirante fantasia, de quem não teme o grand-guignol literário (entre 1897 e 1962, o Théâtre du Grand-Guignol operou em Paris. Diferente de histórias com fantasmas ou monstros, o teatro focava no horror naturalista.
Isso significava usar os medos humanos reais, como a loucura, assassinos e crueldade. As cenas de violência eram tão gráficas e realistas que a equipe do teatro mantinha médicos de plantão para socorrer espectadores que passavam mal) em seu funcionamento discursivo interno em cobertura lógica de regiões heterogêneas deste real face a essa falsa aparência de um real natural social histérico homogêneo coberto por uma rede de proposições lógicas que causa ansiedade até para os não simplórios para usar uma expressão peixe Diana (Pêcheux, 2015 p 32).
Emily recria o mundo semanticamente mortal (normatizado); começa com a relação de cada um com seu próprio corpo, sem arredores imediatos, e explora coisas-a-saber, numa tomada na qual o sujeito em questão pode ter, ou não, noção segura sobre a estrutura do real, qualquer que seja a tomada de posição diante dele, não sendo necessária aí necessário se pensar sobre pegadas hermenêuticas ou situação fenomenológica (mas vejamos: não precisamos saber cientificamente o tipo de determinada doença para ser afetado por ela. Isto é, não precisa saber sobre um tipo de doença para ser afetado por ela. Não conhecer a lei não significa poder cometer crimes.
Se pensarmos em Marx, que seria como o Galileu do continente histórico, Veremos naquela charneca de Wuthering Heights, O Morro dos Ventos Uivantes, o que Emily criou é como se fosse um tribunal onde nós poderíamos expurgar nossas culpas gozosas e queimar na fogueira das emoções mais proibidas em peculiar justaposição caótica de animais humanos em interação de uma montagem discursiva.
Temos no Morro dos Ventos Uivantes a falsa aparência da homogeneidade lógica, estilhaçada num romance eletrizante onde a sordidez da desigualdade social busca, através da linguagem, na literatura de influência gótica, um real próprio contrastando com o não logicamente-estável (que aqui não aparece como um defeito em simples furo no real) que não se reduz a ordenar coisas a saber a um tecido de tais coisas um real estranho a universidade lógica mas um saber que não se transmite aprende ou ensina no entanto existe produzindo efeitos e colocando em suspenso a produção de interpretações em Althusser Luiz Althusser o capitalismo Althusser Ler o capital (Paris: Editora Maspero, 1965 p. 14-15) lemos: “foi a partir de Freud que começamos a suspeitar do que escutar logo do que falar e calar descobri sobre a inocência da fala e da escrita a profundeza determinada de fundo duplo”.
O que dizer do que parece aqui discurso do inconsciente? Ora, Emily Brontë consegue enfrentar o desafio intelectual abre uma falha no bloco compacto e coloca em questão a articulação dual do discurso amoroso com o discurso social provinciano e golpeia o narcisismo da consciência humana, ataca a eterna negociação do “si”, como mestre e escravo de seus gestos, palavras e pensamentos em relação com o outro “si“. No caso: Heathcliff e Catarina representam isso, colocando suspeita no registro do psicológico eu Consciência, comportamento.
A sociedade tentou castrar simbolicamente Heathcliff, mas ele, com o passar do tempo, contra-ataca em movimento anti-narcísico (O termo “anti-narcisista” geralmente se refere a estratégias, posturas ou perfis focados em identificar, neutralizar e se proteger de manipulações narcisistas. O pilar central dessa abordagem é o desenvolvimento do autoamor, o estabelecimento de limites firmes e a priorização das próprias necessidades, o oposto exato do que o narcisista exige da vítima). Os trabalhadores, como a narradora-mor, a empregada Nelly, são exibidos em suas relações com o cotidiano, no inferno da ideologia que os coopta como peças fundamentais para a produção do sentido desconstruindo a ideia que as classes dominadas não poderiam inventar nada de bom por estarem sempre ocupadas no trabalho braçal.
O humor e o traço poético não são o domingo do pensamento, aí. Os empregados se dão ao luxo de experimentar o inconsciente. No romance O Morro dos Ventos Uivantes afirma-se a metalinguagem diante do equívoco da língua. Todo enunciado é suscetível de tornar-se outro diferente de si mesmo, descolando-se do sentido para derivar para um outro, oferecendo interpretações diversas, daí a necessidade da análise de discurso ao outro. nas sociedades e na história interpretação e descrição vão se entrelaçando quando problematizamos o discurso da senhorita Brontë, mas não se misturam no indiscernível, mas em jogo onde os lugares, elipses, no espaço da leitura dentro da pluralidade contraditória de filiações históricas, nem sempre traduz o “óbvio saber”, mas reescreve-o.
Chegamos a uma questão fundamental a refletir: a da discursividade em o Morro dos Ventos Uivantes, instaura-se uma rede de reestruturação de memórias (dos vários narradores. George Bataille, em seu livro A literatura e o mal afirma o fundamento da efusão sexual é a negação do isolamento do eu que só conhece o desfalecimento ao se exceder ao se ultrapassar na solidão do ser (BATAILLLE, 1989, p. 10). Crianças têm o poder de esquecer por um momento o mundo dos adultos A violência de Heathcliff, desenfreadamente, se exprime, e é contraposta pela calma, equilíbrio e simplicidade do discurso da narradora Nelly. O caráter de Heathcliff parece artificial, até mesmo fabricado. Não há lei que ele não se deleite em transgredir. Catherine, Catarina, como preferi chamá-la neste artigo de opinião/ ensaio, é absolutamente é, quase absolutamente não real: absolutamente moral a sua morte é a punição procurada.
Emily Brontë morreu por ter descrito as situações que ela descreveu página 18 ela se emancipara da Ortodoxia Cristã página 19 e 20 a morte é o signo do instante página 21 Emily caça por discurso coerente o essencial humano ali quase incomunicável só poderia surgir por duas vias a poesia e a descrições e das descrição e a descrição das condições nas quais é comum a ceder a estes estados (BATAILLE 1989, p. 23). “Emily atingiu as fronteiras do limite na coincidência de contrários o mal é apenas o princípio oposto de uma maneira remediável à ordem natural que está nos limites da razão” (BATAILLE 1989, p. 27). Há, entre a vida de Emily e as de seus personagens certas ligações que nos fazem refletir no seguinte aspecto:
O que esta projeção de autor na obra sobre si mesmo – passando por deformação, lapsos de memória, seleção, tempo psicológico, peculiar roteiro, mistura da própria vida com os prazeres involuntários que a ficção oferece – parece-nos é uma estratégia encantatória recheada de ambiguidades tentadoras, na qual a homonímia fanática leva o leitor a um labirinto de ambiguidades legítimas que o torna cúmplice na indeterminação do sujeito. Identificando-se com o protagonista, o leitor aceita que o narrador-autor possua a identidade nominal de tudo isto, levando o pesquisador que se baseia na teoria da literatura a chegar próximo desta confusão que se estabelece. (MELO NETO, 2020, p. 112).
É importante destacar que O morro dos ventos uivantes foi escrito em um período de profundas transformações sociais, como por exemplo, a grande fome (período conturbado para a Inglaterra), e a revolução industrial. Embora muitos críticos tenham dito que a sociedade da época não estivesse retratada na narrativa de Brontë, não é difícil perceber como ela retrata, questiona e subverte aspectos daquela sociedade de modo contundente.
Buscamos expressar estas nossas opiniões através de uma adaptação teatral, encenada por atores/ discentes de Letras, que fazem para do nosso Grupo de Extensão na Universidade.
Referências
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo: Editora Ática, 1996.
BATAILLE, George. A Literatura e o Mal. Porto Alegre: Ed. L& PM, 1989.
BRONTË. O Morro dos Ventos Uivantes Bilíngue. Trad. de Doris Goettems. São Paulo: Ed. Landmark, 2012.
MELO NETO, Moisés Monteiro de. Biografia, autobiografia, autoficção: literatura e história em entrelaçamentos vivenciais. Maceió, AL: Editora Olyver, 2020.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.
PÊCHEUX, Michel. O discurso: Estrutura e Acontecimento. Campinas-SP: Pontes Editores, 2015.

Moisés Monteiro de Melo Neto: é autor de vários livros publicados, artigos e tem dezenas de peças teatrais encenadas profissionalmente. Possui graduação em Letras, Mestrado (2004) e Doutorado (2011) em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é docente do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), professor no ensino superior da Universidade de Pernambuco e do Mestrado ProfLetras (UPE Garanhuns), além de ensinar na Universidade Estadual de Alagoas. Coordena Grupos de Extensão, Pesquisa e Ensino (TUG e TUPI UPE/UNEAL). Faz parte do GEPAD (Grupo de Estudos e Pesquisa em Análise de Discurso Pêcheutiana da Universidade de Pernambuco Campus Garanhuns) e NEAB (Núcleo de Estudos sobre África e Brasil da Universidade de Pernambuco). É também romancista, autor da obra “Palimpsesto: um romance pernambucano”, elogiado por um dos maiores romancistas do Brasil, Raimundo Carrero. Como profissional de teatro, já atuou em mais de 40 produções, como ator, diretor, dramaturgo. Vencedor de prêmios literários por textos publicados, algumas das suas peças receberam premiações, outras peças radiofônicas foram ao ar pela Rádio Folha de Pernambuco. É também cordelista com mais de 50 títulos nesta categoria.
