A vida, como compreendê-la?
A vida, como compreendê-la?
A vida é uma parca memória
que se esvanece?
Um poema conjurado por vagas estrelas?
Um delírio de amantes,
nas solidões de campos tortuosos?
Um caminhar de sombra
emparedadas?
Um céu indiferente,
ao sofrimento dos pés?,
Um rebanho à espera,
de todas as pastagens?
A vida, como compreendê-la?
Compreenderemos um dia?
Entre nuvens esgarçadas,
será a vida como este implacável mar
e seus perdidos galeões
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Dilema
Saber de todos os limites,
eis o dilema.
Caminhar para longínquas plagas,
e saber-se sempre
entre desertos e ventanias
Apagar o fogo das estrelas e
perceber-se escravo das ambições
Pisotear o chão,
como se esmagasse palavras e
assim mesmo prosseguir
Cantar todos os provérbios
E escutar o elo das reminiscências
Navegar por entre escombros
E voltar à margem das coisas.
Saber todos os limites,
eis o dilema.
E ao final,
Proclamar o fogo das palavras,
veneno
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Estou aqui
Estou aqui perdido e não me espanto,
pois noite adentro sozinho,
não me encontro
Não sei andar por mim ou por alguém,
que não me permite um só segundo,
que eu ganhe vintém
Pois macerado estou e não me engano,
se alguma vez só fiz o mal e cantei como um soprano,
mesmo sabendo que tudo que sonhei foi desengano
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Meu filho, leva-me pela mão
Meus filhos,
leva-me pela mão
aos antigos caminhos
Encontraremos luas marchetadas,
pássaros desaparecidos,
fontes que se escondem
de animais sedentos
Mas segura minha mão,
e me leve ao parque,
onde eu o levava,
há muitos anos
Éramos jovens?
Éramos ingênuos?
As formigas estavam em todos os lugares,
e a cesta de frutas,
fazia a sua festa
Hoje,
As formigas consultam o tempo,
e se preparam para outras festas
Mas pegue minha mão,
e me leve aos antigos caminhos.
Meus passos são trôpegos,
as montanhas desaparecem no horizonte,
as pedras não reconhecem meus pés,
as estrelas se negam a brilhar,
os laranjais amadurecem mais cedo,
as ausências não cabem nos dedos da memória
Mas pegue minha mão,
e me leve aos antigos caminhos.
Lá teremos muitas surpresas e
ouviremos os relógios do tempo,
batendo mais rápido
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Inventarei um tempo?
Inventarei um tempo
e nasceras de novo
De lugares ignotos
virás
Lá onde florescem
os medos
Lá onde homens das trevas
se aninham
Lá onde não medram
os sonhos mais absurdos
Inventarei um tempo
e nascerás de novo
Serás uma Penélope
sem pretendentes
Quebrarás o invólucro
dos sonhos executados
conheço a sabedoria dos rios
resistindo a todas as correntezas
passarás a limpo os relâmpagos
e farás da palavra
teu único escudo
contra todas as algemas
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Errâncias da memória
Nas errâncias da memória,
a volta dos desesperados:
um grito na noite
Um rio seco onde _navegam
barcos de sonhos
Para que lembrar?
Por que não seguir
a fiel rotina dos pés?
Por que não cumprir
a promessa de todos os invernos,
imprevisíveis seres?
Por que não cavar
o chão das incertezas e
de velhos sulcos,
ganhamos o pão?
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Perguntas ao tempo
Num envelhecido caminho,
para onde vou,
que não sei?
Quem é que encontro,
que já não tenha conhecido?
E os amigos,
para onde partiram?
Já fizeram todos,
a grande viagem?
E as mãos que me afagaram,
que anjo malévolo as roubaram?
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Procura
De martírio em martírio,
o homem vive:
dos deuses herda o desespero
dos espelhos recebe o reverso
da terra ganha as raízes
De martírio em martírio,
o homem avança::
em busca de portos,
à procura das horas,
à espera das palavras ocultas
De martírio em martírio,
o homem encontra:
o holocausto das fantasias,
as memórias ressequidas,
e as noites rebeladas
De martírio em martírio,
o homem descobre:
as amargas lavouras
o funeral dos sonhos
a solidão dos que se amaram.

Carlos Jales: “Nasci em Natal (RN), no século XX, num dia qualquer de um mês da década de 1940, quando o mundo estava envolvido no que se chamou de 2ª Guerra Mundial. Radicado em João Pessoa (PB). Com formação em Direito e Filosofia, lecionei na Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal do Maranhão e na Universidade Católica de Pernambuco. Diplomei-me ainda em Ciências de Desenvolvimento (Paris) e no Curso de Psicologia da Educação pela Universidade Lateranense (Itália). Publiquei os livros: Inventação das Horas, Áspero silêncio, Palavra Submersa, Vindimas da Solidão, Chão Lavrado (Poesia); O admirável mundo velho (Educação); Sociedade e Escola: textos (in) controversos (em colaboração). Antropofilosofia da Educação: um olhar sobre o humano (perguntas de sala de aula). Mestre e Doutor em Educação, tendo atuado na Paraíba como Diretor do 1º grau da Educação, bem como Coordenador Geral de Pós-Graduação (hoje pró-reitoria). Ah sim: sou casado com a mesma mulher há muitos anos: companheira, digitadora, formatadora e crítica dos meus textos. Temos dois filhos, uma filha e seis netos (três netos e três netas) eles me inspiram muito”.
