DE QUE PRECISAMOS!?
O mais antigo fóssil humano encontrado no mundo é Lucy, um Australopithecus Aferensis de aproximadamente 3,2 milhões de anos, descoberto na Etiópia. Outro fóssil mais antigo de destaque que representa a origem do homem é do Homo Sapiens, com cerca de 300 (trezentos) mil anos, encontrado no Marrocos.
Estamos por aqui há muito tempo com nossas vontades, desejos, sonhos, esperanças e, para muitos ainda, religiões e fé, mas talvez nos falte discernimento em todas essas coisas…
“O destino de alguém nunca é um lugar, mas uma nova maneira de ver as coisas”. Henry Miller (1891-1980), escritor norte-americano. Sempre fui uma pessoa que presta muita atenção nas outras pessoas e nas coisas da vida, o que me fez um crítico de ambas. O professor e jurista João Maurício Deodato, amigo de infância, por volta de nossos 15 (quinze) anos de idade, me disse certa vez que eu tinha a mania de querer consertar o mundo. Hoje acho graça porque ele mesmo diz não se lembrar de ter me falado isso.
Hoje confirmo que essa é a minha grande mania, afinal, estamos aqui para evoluir e nesta evolução, a primeira coisa que devemos fazer é ajudar as pessoas e o mundo a melhorar a cada dia um pouco mais! Para isto então eu precisava de muita informação para entender melhor o mundo ao meu redor. Como papai era jornalista, eu sempre procurava estar próximo em suas conversas com mamãe. Logo aprendi que, para ter uma opinião formada, era preciso ter muito conhecimento, sendo, para isso, necessário ouvir todos os lados; exercer o nosso discernimento sempre foi muito fundamental.
Em minhas memórias tudo tem um princípio. Ainda não tinha 10 (dez) anos quando no terraço lá de casa em Olinda/PE, iniciando uma conversa com papai e sem ainda conhecer esta palavra “discernimento”, entendi que precisava tê-la durante minha vida. Assim, quis saber duas coisas dele: De onde veio Deus? Onde terminava o céu? Duas perguntas difíceis de entender, de responder e mais ainda de aceitar, principalmente para uma criança.
Papai simplesmente me disse que Deus não veio de lugar nenhum, Ele sempre existiu; e que não iria morrer, pois Ele sempre existiria. Achei muito confusa esta resposta e não a aceitei. E para complicar ainda mais, disse que o universo não tinha fim. Se já estava complicado aceitar que Deus não veio de lugar nenhum e que jamais deixaria de existir, veio esta de que o céu que eu admirava todas as noites e viajava com minha imaginação, também não tinha fim. Papai logo achou uma maneira de explicar, me mostrando a parede do terraço que dava para o terreno lateral da casa. Ele colocou sua mão na parede e me disse: Imagine que aqui é o fim do universo. E o que é que tem do outro lado? Tudo ficou ainda mais confuso para mim. Encerramos a conversa.
Mesmo tendo sido dito por papai, fiquei pensando que uma pessoa normal nunca poderia provar que Deus sempre existiu e que nunca morreria e nem que o universo não tinha fim… Na época mesmo muito criança, entendi que aquelas eram duas questões apenas para crer, mas isso não era uma coisa fácil de aceitar. Só entendi que necessitava de muito discernimento. “Existem dois tipos diferentes de pessoas no mundo: as que querem saber e as que querem acreditar”. Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo, filólogo, poeta, crítico cultural e compositor alemão.
Lembro que apesar de criança decidi que não iria muito fundo nessas coisas para não endoidar; pensei que deveria “ficar no feijão com arroz” e aproveitar a vida… Também me disseram ainda criança, que dormíamos 1/3 de nossa vida; e aí fiquei pensando que nos outros 2/3 ainda tínhamos que estudar, fazer nossas necessidades, tomar banhos, fazer as refeições etc. Então, logo vi que sobrava muito pouco tempo para viver a vida e também que a morte poderia vir a qualquer momento. Foi aí que percebi que precisava viver intensamente. Para que angustiar-se com uma certeza que você tem de que um dia vai morrer? Era preciso ter pressa em viver. Principalmente quando você não controla em que dia sua vida terminará.
Minha mãe dizia que eu era exagerado: chegava para as festas antes de todo mundo e só queria sair no final… Já nos seus últimos anos de vida, ela me disse: “De todos nós, você é o que sabe aproveitar melhor a vida!” Na época da adolescência, período de experimentações e muitas descobertas, entre nós apareciam dúvidas e questionamentos: Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Hoje todo mundo já sabe que foi… kkkk.
Ainda muito jovem uma coisa me intrigava muito. Ficava pensando por que o cara nascia rico, famoso, bonito, branco, cheio de mulheres… e outro pobre, feio, preto e muitas vezes cego, aleijado e assim vivia toda a sua vida em meio a sofrimentos e privações. Por outro lado, ouvia que existia o céu, o purgatório e o inferno. E aí era que mais dúvidas se instalavam em mim. Então só em outra vida o pobre poderia ou não se dar bem? E como ficam as coisas para ele nessa vida que é a vida real que estão vivendo? E os ricos já nessa vida vão se dando bem! Se o nascer era por acaso e nascer rico ou pobre, ser feliz ou infeliz era uma questão de sorte, onde estava Deus que não só permitia que isso acontecesse como também não fazia nada para isso mudar? O único consolo dos pobres era que, sendo pobres ou sendo ricos um dia todos iriam morrer.
Sim, cresci com muitas indagações, muitas incertezas, e isso me fez até hoje, aos 70 (setenta) anos completados em 23/07/2025, exercer o discernimento como quem carrega uma bandeira por toda sua vida. Estabeleci uma regra prática na minha caminhada, que foi acreditar que tudo é possível, mas que também preciso duvidar de quase tudo. Particularmente, penso que uma pessoa só pode viver tranquila se conseguir entender a morte. Talvez seja isso uma das causas que fazem as pessoas viverem mal. São milhares de religiões no mundo, mas pouquíssimas ensinam a viver e, menos ainda, a morrer.
Mas isso ainda é pouco, quando há religiões que torturam, matam e promovem guerras, tudo em nome de Deus. E há ainda muitas que enganam os pobres com pouco ou nenhum nível acadêmico e cultural, os quais mantêm sob seus domínios tirando vantagem financeira em cima de sua ingenuidade. Pessoas que só obedecem. Tudo em nome de Jesus. Por falta de oportunidades na vida, possuem pouca ou nenhuma capacidade de discernimento. Essas pessoas são induzidas ao conformismo de sua situação de pobreza distorcendo lições da Bíblia Sagrada, afirmando que só os pobres entrarão no Reino dos Céus, quando na verdade, não é isso que diz a Bíblia. Até para seguir uma religião é preciso ter discernimento, pois o mundo está cheio de falsos profetas, verdadeiros picaretas.
Se há tantas máximas nas religiões sobre pós-morte, como por exemplo: “vida eterna”, “a vida continua”, “reencarnação” etc., por que temer a morte? Entrei na área de saúde em 1976. Cansei de ver mortes de todos os tipos. De ver pacientes que não eram para morrer, mas morreram. Como também pacientes que eram para morrer e não morreram.
Uma coisa sempre me intrigou: quando o paciente estava grave e não morria, me diziam que foram as orações ou rezas, as promessas e a fé que os mantiveram vivos. E quando eles morriam, era porque havia chegado a hora e/ou havia sido da vontade de Deus. Eu sempre ficava pensativo com essas conclusões, pois de uma forma ou de outra as pessoas sempre estavam certas.
Tudo o que foi dito até aqui é muito importante para sua evolução desde que não gere alienação ou desequilíbrio diante das vicissitudes da vida. Independente se você crê na existência de Deus ou mesmo se você é ateu ou agnóstico ou ainda se você tem ou não religião, duas coisas você precisa ter nesta vida: resignação – não o conformismo – e resiliência.
Na resignação você sempre precisará de muito entendimento. Já na resiliência, você precisará de muita paciência e aprendizado.
“Só há uma coisa na vida que precisamos aprender e ninguém ensina isso nas escolas: a capacidade de suportar”. Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista ucraniana. Para os que não acreditam em Deus, você vai entender que a quase totalidade das coisas ocorrem sem a sua vontade, portanto, para o seu equilíbrio é preciso aceitá-las e aprender a suportá-las.
Já para os que creem na existência de Deus, basta crer e entender as palavras da Santa Madre Tereza de Calcutá (1910-1977), religiosa católica nascida na Escópia (Skopje/Macedônia do Norte), e naturalizada em Calcutá/ Índia: “Veja você que no final de contas é entre você e Deus, nunca foi entre você e as outras pessoas”.
A oração do Pai Nosso é muito clara quando diz que “[…] Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu […]”. Estando você nesta vida por acaso ou não, certamente não vai “consertar o mundo”, mas para o seu bem, para o bem dos outros e do mundo, você precisa e deve fazer a sua parte da melhor maneira possível.
“Deus para quem crê, religião para quem precisa e discernimento, resignação e resiliência para todos”.

Ricardo Moreira (Testão) – Contato com o autor: ricardomoreira1955@gmail.com
Testão é membro da Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda (AALCO); da Academia de Artes e Letras de Pernambuco (AALP); da União Brasileira de Escritores de Pernambuco (UBE/PE) e da UBE/Olinda. É autor dos livros: “Caminhar, caminhei…” (1992), “Coisa da Vida” (2008) e “Aos nossos filhos”. Participou de várias Antologias. É natural de Maceió/AL, radicado em Pernambuco: Olinda e Recife.
